O Habitat III, ocorrido em Quito, Equador, de  17 a 20 de outubro de 2016, foi um evento de grandioso, com mais de trinta mil participantes, de 167 países, além de muitos equatorianos, que tiveram acesso aos evento paralelos. Ao todo, ocorreram mais de mil eventos nos quatro dias de programação do Habitat III, cujo cerne da programação foi o encontro diplomático oficial, que contou com a participação das delegações dos países membros e tratou de finalizar a Nova Agenda Urbana, um documento que vem sendo construído a alguns anos, em vários eventos ao redor do mundo, contando com uma participação limitada de organizações da sociedade, que tentaram influenciar no texto final. O resultado de todo esse trabalho deverá, agora, ser motivo de intensos debates.

A Agência Habitat, do Sistema ONU, também promoveu um conjunto de eventos paralelos, na Casa de Cultura Ecuatoriana, no Centro de Quito, junto aos Parques El Arbolito e El Ejido. Os eventos paralelos oficiais formaram uma extensa agenda de debate com os mais variados temas relacionados ao desenvolvimento urbano e à habitação, como por exemplo: políticas públicas, financiamento, governos locais, intermediários, metropolitanos e nacionais; assentamentos informais, práticas de urbanização, produção de habitações; mudanças climáticas, moradias em risco, resiliência; cidades justas para as crianças e jovens, visões das mulheres, idosos e deficientes, migrantes e refugiados; acesso a terra urbanizada, equipamentos sociais, espaços públicos; mobilidade, infraestrutura, saneamento, energia, tecnologia e inovação; direitos humanos, direito a cidade, nova agenda urbana; entre outros assuntos.

Foi difícil participar das mesas de debate paralelas promovidas pelo Habitat III. Para entrar no espaço controlado pela ONU, formaram-se extensas filas, com mais de duas horas de espera, devido a limitação dos postos de revista para segurança. Em geral, as salas dos eventos paralelos estiveram lotadas, as mesas tiveram um tempo reduzido, de uma a duas horas, com muitos participantes e pouquíssimo tempo para debate, quando estes chegaram a acontecer. Em geral, as coordenações que propuseram as mesas convocaram seus pares de diferentes países. Nas mesas em que participamos, os expositores tinham posições próximas, o que limitou a  possibilidade de ocorrer um debate mais diversificado e proveitoso para a plateia. Várias mesas tinham grupos de interesse geográfico ou temático bem circunscrito. Por exemplo: governo francês debateu com países africanos a sua cooperação para o desenvolvimento urbano, o que mobilizou basicamente outros países do continente africano.

A ONU também promoveu dois outros eventos. O HABITAT EXHIBITION foi uma feira de negócios e articulações que reuniu estandes de mais de 160 expositores, abrangendo governos de todos os níveis (União Europeia, Espanha, Alemanha, Marrocos, México, outros países e províncias); organizações não governamentais, universidades, e empresas de serviços urbanos que procuram demonstrar a sua experiência e vender seus serviços e suas ideias para outros participantes. O PÚBLIC SPACE ocorreu no Parque El Ejido, e possibilitou a exposição de obras de arte e de eventos informais, para todos os públicos, independentemente da inscrição no Habitat III.

Além dos evento oficiais da ONU ocorreram dois grandes eventos paralelos. O Contra Evento Paralelo a Conferência do Habitat III, chamado RESISTÊNCIA AO HABITAT III, ocorreu na Universidade Central do Equador, e reuniu principalmente representantes de movimentos sociais e acadêmicos de mais de trinta países. O RESISTÊNCIA teve um forte liderança da Aliança Internacional dos Habitantes (IAI), e contou com a participação da Coalizão Internacional da Habitação (HIC). Nesse espaço ocorreu o Tribunal Internacional de Removidos e de Reconstrução Ecológica e Democrática. Também ocorreram reuniões de movimentos sociais da América Latina e assembleias que discutiram propostas relativas à atuação das organizações sociais frente a Nova Agenda Urbana. O Fórum RESISTÊNCIA promoveu uma passeata publica dos seus participantes pelas ruas de Quito, no primeiro dia do evento.

O segundo grande evento paralelo ao Habitat III foi o HACIA UN HABITAT 3 ALTERNATIVO, ocorreu e foi promovido por um grupo de instituições lideradas pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), com participação do Universidade Central do Equador, Colégio de Arquitetos do Equador, Consórcio de Governos Autônomos das Províncias do Equador. O HABITAT III ALTERNATIVO teve um perfil de eventos mais técnico e acadêmico. Sua programação abrangeu ainda o FEMICITY, evento produzido por diversas organizações de mulheres, que ocorreu no auditório da FLACSO.

O HABITAT III contou ainda com outros eventos locais, atividades culturais e encontros de representantes dos diversos países. A dispersão dos locais das atividades diferenciou o HABITAT III do evento anterior ocorrido em Istambul onde parecia existir mais união, alegria e crença no futuro. O principal resultado do Habitat III, a Nova Agenda Urbana, pareceu distante dos dispersos eventos paralelos.  O Habitat III merece muitos debates no próximo período para que se possa compreender e avaliar melhor os resultados alcançados.

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